terça-feira, 27 de setembro de 2016

Capítulo 1

- Hora do óbito?
- Hora do óbito?
Hora? – não sei não
- Dia?
Ano
(???)
1994
Logo após o carnaval, mais ou menos
- Causa morte?
Depressão, pânico, ansiedade, feiura...
Naquela época achava que era loucura...
- E não era?
Não!
Ou pode ser como dizem os psiquiatras terrestres...
Ah! Esqueci! Era também obsessão!
- Pelo o quê?
Eu estava obsedado!
- por quê?
Por quem...
- por quem?
Sim
- por quem então?
Não sei,  Espíritos...
- Espíritos?
Sim
- de quem?
Creio que inimigos do passado...
Espíritos vibrando igual a mim...
- vibrando?
Sim...
Pensamentos doentios, medo, pânico
- hum
Ou por uma “coisa mal conectada”,
No meu cérebro físico veio à tona,
E eles me acharam depois de quinze anos neste corpo
E me atacaram!
E aí desencadearam as doenças no corpo somático...
- e como voltou à vida?
(dou risada) – tratamento médico de seis meses,
Com tarja – preta, novos amigos, álcool e cigarro...
- como?
Sim, mas não misturado – bom aliais,
Eu misturei um dia com vinho barato e passei mal, quase morri
- mas já não tinha morrido?
De fato não!
A morte é ilusão!
- quê?
Sim
- por quê?
Porque a alma é eterna!
Se os Espíritos vieram a minha “caça”,
É porque já viveram na Terra,
E deixaram o corpo, (somente o corpo morre)
Mas a alma é eterna, ou seja, o Espírito...
- e qual a diferença entre alma e espírito?
A alma é o Espírito Encarnado.
-hum...
- se não morreu por que falou o ano do óbito?
Por que era como me sentia...
-como?
Oco, vazio, inútil, frágil mesmo –
Achava que me ia “desintegrar” com um vento forte...
Estava amarelado, cabelo opaco, olhos cinza, pardacentos
Neste estado é muito sono e muito escuro
-e em que ano voltou a se sentir vivo novamente?
1997
- podemos falar que renasceu?
Sim, pura ilusão, mas sim!
Diverti-me muito!
- com a ilusão?
Não, com a vida de ilusão...
- e quanto tempo isso durou?
Mais ou menos três anos...
Mas divide isso em um ano e meio com outro ano e meio
-Por quê?
Por que o mundo voltou a ser azul,
O outono frio com sol quente,
O inverno suportável,
O verão mágico...
- e depois?
Depois tudo cinza novamente...
- data do óbito?

2000.

Capítulo 2

Respondendo tudo isso,
Lembrei-me que pareceu
  a eternidade toda ter sobrevivido a isso...
(paro e olho) - que tem?
Menti...
-Por quê?
   A data do segundo óbito.
    - e qual é?
1998
    - Por quê?
    Porque parei com as aulas de música,
Se é que
considera bateria, música...
- E era importante para você?
Era o sonho de todo meu coração,
O sonho de retornar triunfante para a vida...
  - e por que parou?
Porque a vida é dinheiro!
- não foi só isso...
   Como sabe?
- teus olhos me
falaram antes...
Certo, você acertou!
- e então?
Tive uma desculpa, de trabalho, mas foi antes de tudo, medo, timidez, vergonha, horror...
 - de quê?
Do palco

- mas tinha talento - potencial?
Sabes que tinha!
- e como foi seu trabalho?
Uma merda!
 -Por quê?
Porque pagamos para brincar de trabalhar!
  Endividamo-nos, e em três anos estávamos falidos!
   - financeiramente?
Também...
  - que mais?
     Moralmente – fodidos - alcoolizados cada vez mais...
   - data do óbito?

Agora sim,
2000.

Capítulo 3

Ano 2000, ano 2000, ano 2000...
 “Penso”
fiquei certo quase que o ano todo, que já estávamos no Século XXI... Mas não!
Afinal o calendário, não começou no ano 0
e sim no ano 1
seja antes ou depois de Cristo.
Mas falimos mesmo em 2001...
- de novo errou?
É...
 - que passou?
Tudo...
 Ou quase tudo
- conte...
Tivemos energia elétrica cortada, cheques protestados, telefone
tocando o dia todo, todos os dias, credores e oficiais de Justiça a
porta...
Sem rumo, ficava eu no bar, bebendo e fumando...
Anestesiando minha consciência, afogando meus sonhos, tentando diluir
meu atraso...
- uma fase de fugas?
 Sim
- existencialista?
Pode ser isso...
Mas não totalmente
- e a diversão?
 Hahahaha
- qual é a graça?
Estou me divertindo mais aqui e agora do que lá...
Não me pergunte à hora do óbito!
(me adianto)
 - por quê?
Porque é uma fase confusa
- conte...
Acho que existencialismo se liga mais a matéria, ao concreto.
Acho que li isso num velho dicionário que tenho em casa.
-e que tem?
Por essas datas já começava a estudar a imortalidade d' alma.
- e?
As brigas entre consciência e prazeres começaram...
- e quem ganhou?
Hoje o Espírito está bem à frente nisso tudo!
- e na época?
 Os hábitos...
-que hábitos?
 Das sensações...
- e depois?
Mais um óbito!
 - de quem?
 Meu cachorro.
- data do óbito?
2002

Capítulo 4

- Morreu você por causa da morte de um cão?
Claro!
- não é muito?
Sim 16 anos!
- digo, não é muito sentimentalismo?
Tem filhos?
- dois!
Tem irmãos?
 -não...
Está explicado.
- explicado o que?
Não sabes o que é perder um irmão!
- que seja...
- e como foi?
Passei com ele sua última noite conosco... Vomitou a note toda... Vomitou muito!
E já não tinha mais o que vomitar
sofreu bastante...
- e então morreu?
Na noite seguinte,
o veterinário sacrificou-o
- e não tinha outro jeito?
Não!
Chorei muito no dia seguinte...
- somente no dia seguinte?
Sim!
Fico anestesiado no dia da morte de um ente amado...
Depois desperta a dor,
e como dói...
- algo mais?
Não!
- próximo óbito?
Renascimento
- data?
2004

Capítulo 5

Minha avó paterna morreu!
Sem falar da minha avó materna que morreu em 1986!
Eu tinha apenas sete anos!
Não chorei!
Amava (amo) minhas duas avós!
 Mas não chorei!
Sabe a consciência ou a inconsciência infantil,
é preparada ou mais preparada para a morte!
- mas na ocasião da morte da sua avó paterna, você já era adulto...
Não foi em 2004?
Sim, mas não chorei!
- Por quê?
Não sei...
- mas a amava?
Já disse que sim! - as duas!
- e o renascimento?
Ah sim já havia me esquecido...
Larguei com o cigarro e o álcool!
Na verdade não foi como renascer... Mas foi como nascer!
- o que quer dizer?
Quando nascemos, saímos do ventre na nossa mãe, deve ser dolorido igual...
- a mãe sofre...
A criança também!
Embora não lembremos,
somos retirados de um lugar quente e seguro, para o frio de um hospital,
e lá começa sua dependência...
- e o que tem a ver com o vício?
Você tem que começar a viver,
 ou assumir outra vida,
Sem os hábitos que criou...
Sem essa química que bombardeou seu corpo durante anos...
Seu organismo senti frio, calor, irritação, dores...
- continue...
E quando se é bebê, é igual,
chora por fome, sede, dor...
Estava acostumado, habituado,
com que a mãe lhe dava,
agora precisa criar novos hábitos...
- confuso...
- próxima data?
Óbito?
- tanto faz...
2005

Capítulo 6

Meu pai caiu da escada!
- como foi isso?
Era mês de novembro.
Quase dezembro,
estávamos enfeitando a garagem com luzes de Natal,
a escada abriu ao meio,
meu pai caiu, bateu a cabeça,
desmaiou e do seu tímpano esquerdo - se não me engano - saiu sangue,
muito sangue...
- e morreu ai?
Não!
Antes quero falar que foi eu quem esbarrou na escada e esta se abriu ao meio...
Me senti culpado por muitos anos...
- mas foi sem querer...
Lógico!
- bem e depois?
Coloquei-o no carro - com ajuda dos vizinhos,
e levei-o até o hospital,
foi para a tomografia...
Mas antes claro, muita demora...
- Por quê?
Eu pensava que o exame, já tinha sido realizado...
- e?
E os burocratas do hospital, estavam ao telefone com os burocratas do
plano de saúde, para "autorizar" ou não a tomografia...
- e?
E eu gritei, falei alto, xinguei...
E acho que os meus gritos "autorizaram".
- e o que deu?
Edema cerebral!
Cirurgia - perda de massa encefálica...
UTI, quarto, casa,
UTI, quarto, casa,
UTI, quarto, casa...
- data do óbito?
De fato - fevereiro de 2007
mas como disse minha tia,
 “ele morreu em 2005”
não foi mais a mesma pessoa
- é antes você disse 2005...
Pois é...
- então concorda?
Sim.

Capítulo 7

 - Por que resolveu me contar tudo isso?
Não acabei!
- bem sei...
- mas por quê?
Porque estou chegando aos 40,
e meu sonhos morreram de verdade...
- e que tenho a ver com isso?
Você ficou com toda minha glória.
- mas já estou com preguiça...
Eu também...
Cada ano que passa
me torno mais ridículo em acreditar em você...
- Por quê?
Imaginei que tudo se ajeitaria,
como que um milagre,
mas nunca eu confiei em mim,
Tampouco em milagres!
- nem eu!
Eu sei!
Representei muitas vezes,
dizia que era você sendo eu
não sou o que sonhei
portanto não sou você,
nem de longe...
Mas sou o que sou
e tenho que carregar minha bagagem aonde for...
- e o que queria ser?
Apenas o quarto ou quinto elemento de uma banda!
- o baterista?
Sim
- data do óbito?
Já disse,
1998
- por que parou com as aulas?
Já respondi!
- mas tinha talento...
Eu sei - é isso que me fere de morte!
- mas tem "algum segundo óbito"?
Vários, já disse.
- digo - dentro desta estória de músico?
Vários...
- datas?
Todos os dias.